em terras distantes – final
Mais algumas observações de viajante a respeito da viagem empreendida pela Turquia e Grécia em março último.
Comportamento – Com que facilidade criamos estereótipos e misturamos coisas distintas. Pelo menos para mim turco, árabe, sírio, libanês eram todos farinha de um mesmo saco. Santa ignorância! A única coisa que une esses povos é o islamismo. Os turcos são europeus, ainda que hoje a maior extensão do país esteja na Ásia. Sua tez é clara, e comumente encontramos gente de olhos verdes, mas sempre de cabelos pretos. A Turquia moderna foi moldada no início do século 20 por Mustafa Kemal Attaturk, reverenciado por todos e em todos lugares. Ele ocidentalizou o pais, impondo o alfabeto latino e instituindo a completa separação religião-estado (exceção entre nações islâmicas). Os turcos são gentis, prestativos e é comum os vermos às gargalhadas quando em grupo. Agora, o machismo corre solto. Com exceção das áreas modernas como o centro financeiro de Istambul, não vemos mulheres exercendo atividades; não as vemos tomando conta de um loja, por exemplo. A elas compete ficar em casa e cuidar da família. Quando saem para rua devem usar vestidos longos e lenços e qualquer estima de beleza feminina fica escondida sob o vestuário padrão. É comum vermos meninos passeando com seu pai, mas raro ver uma menina na mesma situação.
Quanto aos gregos, bem eles são os inventores do drama. Namorando, parece que estão discutindo. Falando, parece que brigam. Um ou uma delas falando ao celular faz qualquer ambiente se tornar sonoramente poluído.
Religião – Atentar para a pratica religiosa nos dois países é interessante. Na Turquia, o islamismo é levado a sério. Vencida a resistência de entrar em uma mesquita e submetendo-se ao ritual de tirar os sapatos, podemos apreciar essa devoção. O fiel deve se lavar antes das orações e os pátios das mesquitas são dotadas de áreas apropriadas para tal. O se lavar é feito com contrição, sem pressa, realmente como parte do ato religioso. As mesquitas são muito bonitas e bem cuidadas. Entramos e saímos delas sem perceber qualquer aparato de vigilância e depois fomos descobrindo que os próprios fiéis é que as cuidam. Há uma identificação comunitária muito forte pois a mesquita deve ser freqüentada diversas vezes ao dia. Entrando em Izmir por um dos acessos visualizei onze mesquitas, contadas sem virar a cabeça. São muitas. Na Grécia, o mesmo papel de identidade social é exercido pela Igreja Ortodoxa, ainda que enfrentando os desafios de cativar a população jovem, não tão afeita à tradição. Há muita similitude com as Igrejas católicas, com a grande diferença de não possuírem imagens, mas a reverência dos fiéis é dirigida aos ícones. Eles crêem que ao contemplá-los há um processo didático de transmissão das verdades espirituais. É comum ver as pessoas beijarem todos os ícones expostos na Igreja, passando-os um por um. São Igrejas bem pequenas, algumas não comportando mais que 20 pessoas, mas tal como na Turquia encontramos uma delas em quase cada quarteirão. Também nota-se pessoas da comunidade cuidando delas ininterruptamente, pois normalmente contém um acervo valioso de bens.
Brasileiros – Brasileiros ainda não são algo muito comum por ali. Brasileiro do tipo branquelo então chega a ser chamado de mentiroso… Mas, quando identificados, o carinho é grande. Tentam de toda maneira fazer alguma conexão: Rio de Janeiro? Como é mesmo o nome daquele festa grande? São Paulo? Futebol? Alguém chegou a perguntar: Brasil do Santos? Pois é, vale tudo. Na Capadócia um taxista disse que tem visto mais brasileiros. A surpresa, nas palavras dele, é que o interesse maior dos brasileiros é procurar o lugar onde nasceu São Jorge. Bem, com todas as cavernas de lá os nossos turistas correm o risco de encontrar o dragão primeiro.

















